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segunda-feira, 6 de maio de 2013

A interessante frustração de assistir "Somos tão jovens"



Engana-se quem acha que o caminho mais fácil para alcançar o sucesso seja escolher algo compartilhado pelo grande público.  Está equivocado aquele que pensa que produzir um filme sobre o ídolo do rock brasileiro de 80 seja a alternativa mais viável para aceitação da plateia, indicativo para faturamento de bilheteria, ranking dos 10 mais.
Falar para o grande público exige cuidado. Falar para o grande público sobre alguém querido que já foi e que continua vivo, é arriscar-se por completo.
Afinal, quem era Renato Russo?
Deixou de ser filho do economista do banco do Brasil e da dona de casa logo cedo, assim que ouviu as primeiras músicas de punk na fita k7 em seu quarto. Tratou de deixar de ensinar inglês, de ser só universitário. Queria fazer música, tinha uma inquietação enorme no que diz respeito à mobilização política, a discordância com o governo e todos os vizinhos do Planalto Central.
E aí vocês querem que um filme de menos de duas horas retrate esse cara?
Renato é meu, seu, do seu vizinho, do meu primo de 13 anos, da minha tia de 52, do seu avô, do seu tio...  Renato é patrimônio público brasileiro. E como tal, sinto muito, mas o cineasta, o diretor, vão mesmo levar patada.
Isso por que ninguém fala de algo que é meu, que tem vários momentos compartilhados comigo, e tudo fica por isso mesmo.
Eu vou logo te avisando que quando você for assistir ao filme, provavelmente sairá frustrado, vai achar que tá faltando alguma coisa, que alguém se esqueceu de colocar a tua música favorita, uma parte muito bacana da vida dele que você conhece foi mal retratada ou esquecida. Eu me senti assim. Achei um pouco forçado quando tentavam explicar através de diálogos frases que as canções já eternizaram.
E será sempre com todos que tentarem produzir qualquer coisa, seja na música, na literatura ou no cinema, o que seja relacionado a ele. É que o cara tinha o dom, é o criador da "perfeição". Para o resto, talvez devêssemos dar o desconto e encarar como mais uma homenagem.
Apesar de não ter ficado satisfeita, pude constatar algo bacana enquanto o filme não começava. A senhora do meu lado, os dois meninos da fileira da frente, o cara com a camisa do Che Guevara, o outro com a camisa dos Ramones, uma loira de mãos dadas com um homem que se não era o Galã do Brega, pode fazer cover dele facinho... Tava todo mundo lá, reunido, feito a Legião que ele idealizou há décadas...
Mesmo que o longa fique devendo, eu saí daquela sessão satisfeita só por ter visto a discussão acontecer. Só por ter ouvido a galera questionar a qualidade da música brasileira, por ter observado as aproximações que aconteceram com um simples: “tu gosta de legião e o que mais?” Por se discutir vícios, mobilização, política e homossexualismo. 
Se metade das pessoas que assistirem o filme, estiver solícita a bater um papo sobre temas delicados como estes, por mais sofrível que seja, ainda assim valerá a ida até lá.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Amigas e Rivais?



Se você usa o e-mail regularmente já deve ter lido uma piada popular em relação à diferença entre a amizade dos dois sexos. É mais ou menos assim: Após dormir fora, a mulher avisa ao marido que estava na casa da amiga. Ele liga para 10 amigas dela e nenhuma confirma o caso. Já quando o homem passa a noite longe de casa e a esposa resolve ligar para 10 amigos dele, ouve confirmação de cinco, enquanto outros cinco não só garantem a versão, mas, asseguram que o cara ainda está lá no maior sono.

Essa é apenas uma das recorrentes piadas que ouvimos sobre a lealdade e companheirismo que marcam a forma como a ala masculina enxerga a amizade, sempre em contraste com a competição, inveja e rivalidade que configuram a relação de afeto entre as mulheres.

Mas... Desde quando? E, pq? Baseado em que?


 Na infância, os contos de fadas nos mostram várias situações em que as mulheres estão se enfrentando pela atenção do protagonista, disputam os melhores atributos e fazem sacrifícios pela juventude eterna. É o caso das madrastas, que querem acabar com as enteadas e reinar sozinhas no coração do rei.

Na adolescência as comédias românticas exaltam as populares da escola. Aquelas que têm o cara, o corpo e as roupas dos sonhos e por isso devem ser admiradas, respeitadas e por que não, invejadas.

Na vida adulta dizem que nos arrumamos para ficarmos mais bonitas que as amigas. Que se emagrecer for muito difícil para nós, adoraríamos que elas ficassem cheinhas junto. Estamos aqui, pro que der e vier, ajudando, rindo, compartilhando momentos únicos. Mas, ao final do dia, quando chegarmos a casa, ainda nos lembraremos dos defeitos físicos dela, que, claro, são mais evidentes que os nossos.

E será mesmo? Será que somos biologicamente programadas para sermos competitivas, invejosas e manipuladoras?

Mais do que o espelho que desenvolvemos ainda na tenra infância, fica a nítida impressão de que somos também constantemente incentivas, pelos modos culturais, midiáticos e sociais vigentes, a cultivar esta competição.

Em recente publicidade, uma mulher comum marca um encontro na praia com o namorado. Ao chegar, se depara com Débora Nascimento, atriz cuja última personagem na TV ajudou a popularizar a música “assim você mata o papai”, de um famoso grupo de pagode. Ao avistar a atriz de biquíni, a moça logo muda o local do encontro com o namorado, numa clara manifestação de insegurança perante a “rival”. Você nunca viu alguém rindo e concordando durante sua exibição?

Ao passear pelos canais de televisão, há alguns dias, ouvi a confissão de uma convidada num desses programas sobre celebridades: “Ligo mais para o sapato do que para roupas. É a primeira coisa que olho nas minhas amigas também. Aliás, você já deve estar cansado de saber que mulher se produz para mulher, não é?” Disse ela ao apresentador, aos risos, enquanto o controle me levava de volta ao passeio.

“Mulher se arruma para mulher”, ok. Mas, pra quê mesmo? Como forma de competir, esperar o olhar
da outra na rua para ter certeza de que realmente está bela e despertou inveja? Que sim, se alguma representante da ala feminina, famosíssima pela percepção aguçada, se curvou a sua beleza, você está mesmo arrasando e representa perigo à moça, por ser uma concorrente fortíssima? Eita! Pensei que a gente se arrumasse para outras mulheres...

Acredito mesmo que seja necessário rever esse senso comum antes de irmos compartilhando e reproduzindo aleatoriamente, sem o mínimo de reflexão. Somos cuidadosas, detalhistas e meticulosas? Sim. Mas daí a dizer que fofoca, intriga e rivalidade pegam carona em nossas qualidades, é um pouco pesado, né não?